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O sítio arqueológico Pedra do Cantagalo I A Pedra do Cantagalo I é um abrigo sob-rocha arenítica, localizado no povoado Jardim, área rural do município de Piripiri, estado do Piauí, Brasil (Figura 2). Nesse magnífico sítio arqueológico existem mais de 1.950 pinturas rupestres, distribuídas em uma extensão de 80,30 metros de parede rochosa decorada (CAVALCANTE; RODRIGUES, 2010).
A conservação das pinturas desse abrigo é afetada por erosão natural, eflorescências salinas, migração de água de dentro do arenito e do topo do bloco rochoso, dejetos animais, ação de insetos (particularmente cupins, ninhos de vespas-marimbondo e de vespas-maria pobre, bem como de colméias de abelhas) e impacto humano (pichações, deposição de fuligem (manchas de fumaça) e acúmulo de lixo na área abrigada e imediações) (CAVALCANTE; RODRIGUES, 2010).
As medidas de temperatura e umidade relativa do ar ambiente foram coletadas usando um termo-higrômetro digital da Instrutemp, com escalas internas de -10 ºC a +50 ºC (para temperatura) e 15% a 95% (para umidade), com resoluções correspondentes de 0,1 ºC e 1% e precisões respectivas de ±1 ºC e ±5%. A avaliação de temperatura (realizada em dois diferentes pontos, conforme a Figura 5) em áreas do suporte rochoso com pinturas rupestres e, comparativamente, em áreas, imediatamente adjacentes, sem tinta pré-histórica, foi efetuada com um termômetro infravermelho ITTI-550 da Instrutemp, projetado para a medição da temperatura de superfícies, com escala de -32 ºC a +530 ºC, com resolução de 0,1 ºC e precisão de ±2%. A velocidade dos ventos foi aferida com um anemômetro digital portátil ITAN-700 da Instrutemp, com escala 0 a 30 m s-1.
O monitoramento da umidade relativa do ar ambiente também pode ser acompanhado pela avaliação da Figura 6, na qual se pode observar que a variação da umidade relativa do ambiente durante o mês de junho de 2012 foi de 35%, com a máxima de 74%, às 06h47min, e mínima de 39%, às 15h47mim. Em outubro de 2012 a amplitude correspondente foi de 28%, com máxima de 54%, às 05h59min, e mínima de 26%, às 14h59mim. Em dezembro 2012 a variação foi de 49%, com máxima de 74%, às 05h05min, e mínima de 25%, às 17h05min. Já em abril de 2013 a amplitude de umidade relativa foi de 12%, com máxima de 91%, às 07h24min, e mínima de 79% às 09h24min. Em junho de 2013 a variação desse parâmetro foi de 26%, com máxima de 85%, às 07h09min, e mínima de 59%, às 16h09min.
A avaliação geral durante todo o período de medidas experimentais aponta uma amplitude térmica anual de 13,6 °C (entre junho de 2012 e junho de 2013), com temperatura máxima de 36,3 °C, colhida em outubro de 2012, e mínima de 22,5 °C, registrada no mês de abril de 2013. A amplitude anual da umidade relativa do ar foi de 66%, com máxima de 91%, detectada em de abril de 2013, e mínima de 25%, determinada em dezembro de 2012. A avaliação da temperatura no substrato rochoso (Figura 7) em pontos com pinturas rupestres e imediatamente adjacentes, mas sem tinta pré-histórica, revelou, de modo geral, que não há diferença térmica significativa entre as áreas com e sem material pigmentante.
Em 28 de dezembro de 2012 a variação máxima de temperatura no ponto P1 foi de 5,7 °C, com máxima de 33,0 °C, detectada às 13h5min, e mínima de 28,2 °C, registrada às 5h5min. Já no ponto P2, em dezembro a amplitude térmica foi de 6,4 C, com máxima de 33,9 C, detectada às 16h5min, e mínima de 27,5 C, determinada às 5h5min. No dia 5 de abril de 2013 a amplitude térmica observada no ponto P1 foi de 3,0 °C, com temperatura máxima de 28,9 °C, verificada às 9h24min, e mínima de 25,9 °C, às 5h24min. No mesmo período o ponto P2 exibiu amplitude térmica de 3,0 °C, com temperatura máxima de 29,3 °C, às 12h24min, e mínima de 26,3 °C, às 5h24min. A amplitude térmica em junho de 2013 no ponto P1 foi de 4,2 °C, com máxima de 29,3 °C, verificada às 15h9min, e temperatura mínima de 25,1 °C, às 5h9min. Nesse mês o ponto P2 apresentou amplitude correspondente de 4,6 °C, com temperatura máxima de 29,9 °C, às 17h9min, e mínima de 25,3 °C, também observada às 5h9min. A velocidade dos ventos (Figura 9) foi aferida continuamente, nos períodos em que as medidas experimentais de temperatura do substrato arenítico e em que a avaliação termo-hidrométrica foram efetuadas, verificando-se correntes de ar com velocidades máximas da ordem de 2,6 m s-1 (em junho de 2012), de 5,4 m s-1 (em outubro de 2012), de 4,4 m s-1 (em dezembro de 2012), de 2,7 m s-1 (em abril de 2013) e de 4,3 m s-1(relativa a junho de 2013). Observa-se claramente a maior frequência e intensidade das correntes de ar nos meses mais secos do ano, que correspondem ao período de meados de junho até meados de janeiro ou fevereiro, nos anos em que a estação de chuvas é mais curta.
Considerações Finais O monitoramento in situ, aqui, reportado é de fundamental importância para avaliar os processos causadores da degradação do substrato arenítico do abrigo Pedra do Cantagalo I e um procedimento experimental primordial para aprofundar o conhecimento sobre esse sítio arqueológico, complementando o conjunto geral de dados que já existem a respeito desse abrigo rochoso (CAVALCANTE et al., 2014). As elevadas amplitudes térmicas verificadas diariamente provocam a dilatação dos minerais da matriz rochosa e do fino filme de tinta pré-histórica durante o dia e a contração dos mesmos no período noturno, ocasionando a desagregação mecânica da rocha e das camadas de tintas pré-históricas e, configurando, claramente, um processo de termoclastia. De modo geral, observou-se também que nas primeiras horas do dia o ar ambiente é mais frio do que o substrato arenítico. Aproximadamente entre 9 e 10 horas as temperaturas em ambos os meios se equiparam e logo em seguida o ar passa a ficar mais quente do que o substrato rochoso. Do ponto de vista analítico essa constatação é muito ruim, pois uma vez que as pinturas rupestres foram realizadas na interface entre o ar e o substrato pétreo, tais oscilações e amplitudes térmicas (nos diferentes meios e entre eles), assim como as oscilações e amplitudes de umidade relativa do ar, são péssimas para a preservação da integridade dessas inscrições pré-históricas e da própria rocha matriz.
Comparativamente ao monitoramento in situ realizado no sítio arqueológico Letreiro da Pedra Riscada-LPR (CAVALCANTE et al., 2015), efetuado com a mesma metodologia adotada na Pedra do Cantagalo I-PCI, observa-se que a temperatura do ar exibe valores aproximados com máxima de 36,6 °C no LPR e de 36,3 °C na PCI. A temperatura mínima do ar, por outro lado, foi de 22,5 °C na PCI e de 24,7 °C no LPR. Em termos de amplitudes térmicas diárias, a PCI revelou valores variando de 3,8 °C a 11,2 °C, dependendo do período do ano, ao passo que o LPR apresentou amplitudes entre 4,6 °C e 9,8 °C. Considerando o período integral de medidas experimentais, a amplitude térmica anual da PCI foi superior à do LPR, respectivamente 13,6 °C e 11,9 °C. Prosseguindo com a comparação entre os dois sítios arqueológicos, em termos de umidade relativa do ar, a PCI exibiu máxima de 91% e mínima de 25%, enquanto o LPR variou entre 87% e 25%. A amplitude diária de umidade relativa para a PCI situou-se entre 12% e 49% e entre 14% e 43% para o LPR, dependendo do período do ano em que a aferição foi realizada. A amplitude anual correspondente para ambos os sítios de arte rupestre foi de 66% e 62%, respectivamente. Em termos de avaliação da temperatura do substrato arenítico, em áreas com pinturas rupestres, comparativamente observaram-se amplitudes térmicas variando entre 3,0 °C e 8,4 °C na PCI e entre 2,6 °C e 8,1 °C no LPR. A avaliação geral desse conjunto de dados permite verificar que as condições ambientais investigadas são relativamente mais rigorosas e severas no abrigo Pedra do Cantagalo I do que no sítio Letreiro da Pedra Riscada, considerando-se que as amplitudes dos parâmetros aferidos são mais elevadas para aquele sítio arqueológico do que para este.
Agradecimentos Os autores são gratos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo apoio financeiro (processo 487148/2013-4), à Universidade Federal do Piauí (UFPI), pela participação das discentes Heralda KSB da Silva e Yana RV Alves no Programa de Iniciação Científica Voluntária e pela concessão de transporte para o desenvolvimento das atividades de campo, e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), pela autorização de pesquisa na área.
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y Sousa Bezerra da Silva, Heralda Kelis. Avaliação in situ dos problemas de conservação do sítio arqueológico Pedra do Cantagalo I.
REFERÊNCIA CAVALCANTE, L. C. D. Pinturas rupestres da região arqueológica de Piripiri, Piauí, Brasil. Arqueología Iberoamericana, n. 26, p. 6-12, 2015. <http://www.laiesken.net/arqueologia/archivo/2015/26/1>. CAVALCANTE, L. C. D.; RODRIGUES A. A. Arte rupestre e problemas de conservação da Pedra do Cantagalo I. International Journal of South American Archaeology, n. 7, p. 15-21, 2010. CAVALCANTE, L. D. C.; RODRIGUES, A. A.; COSTA, E. N. L.; SILVA, H. K. S. B.; RODRIGUES, P. R. A.; OLIVEIRA, P. F.; ALVES, Y. R. V.; FABRIS, J. D. Pedra do Cantagalo I: uma síntese das pesquisas arqueológicas. Arqueología Iberoamericana, n. 23, p. 45-60, 2014. <http://www.laiesken.net/arqueologia/archivo/2014/23/3>. CAVALCANTE, L. C. D.; SILVA, H. K. B.; ALVES, Y. R. V. Medidas experimentais in situ para avaliar o estado de conservação do sítio arqueológico Letreiro da Pedra Riscada, Domingos Mourão, Piauí, Brasil. Rupestreweb – arte rupestre en América Latina, 2015. <http://www.rupestreweb.info/letreiropedrariscada.html>. MAGALHÃES, S. M. C. A arte rupestre no centro-norte do Piauí: indícios de narrativas icônicas. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2011. <http://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese-2011_Sonia_Maria_Campelo_Magalhaes.pdf>. MARTIN, G. Pré-história do Nordeste do Brasil. 5. ed. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2008. RODRIGUES, P. R. A. Motivo rupestre como indicativo cronológico: análise morfológica, contextual e intercultural. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2014.
©2017 (Autores) Luis Carlos Duarte Cavalcante, Yana Raquel Viana Alves y Heralda Kelis Sousa Bezerra da Silva. ©2000-2017 (Editor) Rupestreweb
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