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A cidade de Rurópolis tem suas origens no início
da década de 1970 e sua criação está relacionada ao Programa de Integração
Nacional (PIN), que visava desenvolver a região através de um grande programa
de colonização estimulado pela migração de trabalhadores de várias partes do
Brasil.
Rurópolis
está localizada a 1.170 km de Belém, capital do estado do Pará, no
entroncamento da Rodovia Transamazônica (BR-230) com a Rodovia Cuiabá –
Santarém (BR-163), estradas que facilitam as vias de acesso a todas as regiões
brasileiras (Figura 1).
Os cinco
sítios arqueológicos com arte rupestre localizados em Rurópolis em julho de
2011 estão localizados em estradas vicinais da BR-230 (Transamazônica) no
trecho Itaituba-Rurópolis. São eles: Caverna das Mãos, Caverna do Caximbão,
Caverna das Damas, Caverna do 110 e Caverna da Borboleta Azul (figura 2).
A descoberta das pinturas rupestres na Caverna das Mãos foi
feita em 1998 por Erismar de Souza Silva. Nessa época havia na parede em frente
a entrada da caverna duas gravuras pintadas (figura 4, detalhe) que foram
destruídas quando o suporte no qual estavam foi raspado para colocação do
primeiro altar.
O painel 2 está localizado em frente ao painel 1, mas devido a posição da parede as gravuras só podem ser vistas com auxilio de luz artificial (figura 6 a, b). Nesse painel as figuras são geométricas (grafismos puros), algumas com pintura preta no interior das incisões (figura 6b).
A zona 2 corresponde aos primeiros 30 metros de uma extensa
galeria que se desenvolve por cerca de 500 metros (estimados) ao longo da qual
corre um rio cujas águas deslizam fortemente nos primeiros metros a partir da
entrada principal da caverna. Conforme penetra na caverna a água corre mais tranquila
e se observam trechos com sedimento que ficam fora do alcance das águas, pelo
menos em tempos de seca.
As gravuras da zona 2 estão em área afótica e se localizam próximo
ao solo. Os temas representados são principalmente formas geométricas (figura 7)
e alguns zoomorfos e possíveis antropomorfos gravados com incisão fina.
Seguindo pela mesma galeria a aproximadamente 450 metros
(estimados) da entrada da caverna, em zona afótica, chega-se a zona 3 onde
ocorrem as pinturas rupestres. Essas pinturas estão agrupadas em painéis
localizados próximos entre si tanto na parede à direita quanto à esquerda. Os
temas representados são, principalmente, mãos em positivo - e que originou o
nome da caverna - (figura 8a, b, c) e figuras biomorfas (figura 8d).
Além da parede que foi raspada na entrada da gruta, observam-se
ainda outros danos de origem antrópica na Caverna das Mãos. Na parede na
entrada da caverna há uma série de pichações gravadas na rocha (figura 9a). No
interior da extensa galeria, próximo ao local onde estão as gravuras rupestres (zona
2) há desenhos modernos gravados na parede (figura 9 b, c).
Os problemas de conservação de origem natural estão
relacionados ao desplacamento natural da rocha (tanto para pinturas como para
as gravuras), eflorescência salina sobre algumas pinturas e, provavelmente, a
força das águas no período chuvoso quando o nível do rio aumenta dentro da
caverna.
O sítio apresenta pinturas e gravuras rupestres que estão
localizadas na parede ao fundo da caverna. A cavidade é pouco iluminada e as
gravuras e pinturas encontram-se na penumbra e só podem ser visualizadas com
auxílio de luz artificial. Foram identificados três painéis sendo dois com pinturas
e gravuras. Os temas identificados foram os grafismos puros (figura 10 a),
zoomorfos (figura 10 b) e antropomorfos filiformes (figura 10 c). As técnicas
utilizadas para as gravuras foram a incisão profunda e o raspado cuja
composição confere aos motivos o efeito de alto relevo. Esse efeito é acentuado
pelo contraste de cor entre a parte raspada e a não raspada (mais escura devido
a pátina da rocha) (Figura 10 c)
No solo há bastante sedimento, mas não foi observada a
presença de outros vestígios arqueológicos (cerâmico e lítico). No entanto, a
sua presença não pode ser descartada, havendo necessidade de um trabalho de
prospecção intra-sitio mais detalhado para a identificação desses vestígios em
sub-superfície, bem como, para a identificação de possíveis outros painéis com
arte rupestre no interior da caverna. O sítio encontra-se bem conservado e não foram
observados danos de origem antrópica.
CAVERNA
DAS DAMAS
A esquerda de quem entra, a caverna tem pouca profundidade,
parecendo mais um abrigo com uma altura máxima de 2,5 metros. Nessa área, o
sedimento está conservado, há alguns blocos rochosos no solo e as pinturas
estão localizadas no teto (painel 1). Na parede próxima a entrada da área mais
profunda da caverna encontra-se o painel 2 e, um pouco mais a sua frente, o
painel 4. Ambos estão localizados a mais de 2 metros de altura em relação ao
solo atual. Próximo a entrada da caverna, a direita de quem entra estão
localizados no teto os painéis 5 e 6. Na parte mais profunda da caverna está o painel 7.
Na entrada da caverna houve um desmoronamento do sedimento o
que provocou um acentuado desnível entre o solo da parte exterior e interior da
caverna. O acesso aos painéis 4 e 5 era provavelmente mais fácil antes desse
desmoronamento. Hoje, a distância entre o solo atual e o teto onde estão esses
painéis é de cerca de 4 metros.
As pinturas estão elaboradas nas cores vermelha e branca,
sendo a bicromia de algumas figuras e a grande quantidade de pinturas na cor
branca o destaque desse sítio (figura 11a, b, c, d).
Em uma das rochas situadas abaixo do painel 1 há três
cúpulas. No solo há bastante sedimento, mas não foi observada a presença de
outros vestígios arqueológicos como cerâmica e líticos. No entanto, a sua
presença não pode ser descartada, havendo necessidade de um trabalho de
prospecção intra-sitio mais detalhado para a procura desses vestígios em
sub-superfície, bem como, para a identificação de possíveis outros painéis com
arte rupestre no interior da caverna.
Nenhum dano de origem antrópica foi detectado nas pinturas. Os
problemas de conservação são de origem natural como a presença de liquens, casas
de cupins e eflorescência salina.
Os painéis 1, 2 e 3 estão localizados no salão 1 cujo acesso
é feito pela entrada mais ampla onde a luminosidade é maior e por isso mesmo os
grafismos podem ser visualizados com a luz natural (Figura 15 a, d). Os painéis
4 e 5 estão localizados na galeria, em área de penumbra e as figuras que os
compõe só podem ser vistas com luz artificial (figura 15 b, c).
Os painéis 6, 7 e 8 podem ser vistos com a luz natural
(figura 13 e 14). Eles estão localizados no salão 2 cujo acesso se faz pela
entrada mais estreita da caverna.
Os grafismos puros predominam entre as gravuras rupestres, há
poucas representações de animais (quadrúpedes). Há pelo menos duas gravuras
pintadas nas cores preta e vermelha (figura 15a). Os temas encontrados nas
pinturas são antropomorfos e animais (peixe) (figura 15b, d)
A incidência de luz na caverna é pouca e dificultada pela
vegetação existente na parte exterior. No interior da caverna foram encontrados
em superfície alguns fragmentos de cerâmica O sítio está bem conservado. Não
foram observados danos de origem antrópica e os problemas de conservação estão relacionados
a fatores naturais como a presença de liquens, casas de cupins e eflorescência
salina.
CAVERNA DA BORBOLETA AZUL O sítio está bem conservado. Apenas um dano de origem
antrópica foi observado no sítio: um nome gravado na rocha. Os problemas de
conservação estão relacionados a fatores naturais como liquens e eflorescência
salina.
A observação preliminar dos sítios com arte rupestre visitados
revela uma série de características ainda não observadas em outros sítios com
arte rupestre na Amazônia e, provavelmente, no restante do Brasil (Pereira,
2003). A primeira delas e, indiscutivelmente, a mais espetacular é a presença
de pinturas nas profundezas de cavernas em zonas afóticas. A outra é a presença
de arte rupestre no interior de cavernas não muito profundas, mas escuras o
suficiente para que a arte rupestre seja visível apenas com luz artificial. O
primeiro caso é exemplificado pela Caverna das Mãos. Trata-se de um sítio
excepcional e que merece destaque pelo fato da arte rupestre estar em zona
afótica e distante mais de 400 metros da entrada da caverna o que se configura
como um caso excepcional no Brasil (5).
A presença de arte rupestre no interior de grutas em áreas
completamente escuras é inédita no Brasil. Em alguns lugares, como em Monte
Alegre, no Pará, foram registrados sítios onde a arte rupestre se encontra em
zonas de penumbra e necessita de luz artificial para ser visualizada (Pereira,
2011, 2012). A Caverna das Mãos, no entanto, com pinturas rupestres localizadas
em áreas profundas e afóticas é, provavelmente, um caso único no Brasil. Essa
particularidade confere ao sítio uma importância sem precedentes no país. Além
da importância arqueológica desse sítio, a sua proteção é premente por vários
motivos entre os quais destacamos: a) as intervenções antrópicas que provocaram
dano ao patrimônio arqueológico; b) a presença de pichações modernas gravadas
nas rochas próximo as gravuras pré-históricas; c) a construção na entrada da
caverna de um altar religioso que sugere peregrinação ou atividade religiosa no
local (ainda que esporádica) e; d) a facilidade de acesso estimulada pela
construção de uma escada que dá acesso ao interior da gruta.
O outro ponto de destaque da Caverna das Mãos diz respeito a
própria arte rupestre cujas técnicas e motivos sugerem, a principio, diferentes
momentos de ocupação na caverna. Chamamos a atenção também para o painel com
motivos zoomorfos localizado na entrada secundária da gruta (ver figura 5) cuja
técnica empregada - gravação profunda - destaca fortemente as figuras no
suporte.
Nos demais sítios com arte rupestre de Rurópolis - Caverna
do Caximbão, das Damas, do 110 e da Borboleta Azul – algumas pinturas
e/ou gravuras rupestres localizadas na penumbra só podem ser observadas só com
auxílio de luz artificial. Essa é uma particularidade que confere destaque e
importância a esses sítios por tratar-se de casos pouco frequentes no Brasil.
Em todos os sítios visitados tanto as pinturas quanto as
gravuras apresentam um conjunto de características técnicas e estilísticas
bastante peculiares. Destaca-se entre elas o uso da cor branca para a
elaboração dos motivos (até o momento o uso dessa cor era inédito na arte
rupestre da Amazônia brasileira); o uso da bicromia em vermelho e branco na
composição dos motivos (também inédito na Amazônia brasileira); pinturas
elaboradas em preto; motivos gravados elaborados com a técnica do gravado
profundo que permite destacar fortemente a figura no suporte rochoso. Os temas
representados são diversos (zoomorfos, antropomorfos e grafismos puros) e
possuem características estilísticas diferentes nos diversos sítios da área e
até mesmo em um mesmo sítio o que sugere, como dito anteriormente, diferentes
momentos de ocupação em uma mesma caverna.
A presença de vestígios cerâmicos na superfície de alguns
sítios como na Caverna do 110 e na Caverna da Borboleta Azul, sugere que os
locais podem ter sido ocupados com finalidade de moradia (ainda que temporária)
ou ritualístico. Um projeto visando responder as questões relacionadas a forma
de ocupação dessas cavernas e a datação e contextualização da arte rupestre
está em curso (6) e seus
resultados serão publicados em breve.
Com exceção da Caverna das Mãos, os demais sítios são pouco visitados por curiosos ou turistas. Isso se deve, em parte, pela dificuldade de acesso até eles. No entanto, ressalta-se a preocupação com a divulgação e visitação pública ao sítio Caverna das Mãos que vem sendo estimulada por particulares da região. Expor um sítio arqueológico a visitação pública requer uma série de requisitos relacionados a infraestrutura e proteção, além de pesquisa para subsidiar informações a serem repassadas aos visitantes (Pereira, 2005; Pereira e Figueiredo, 2005; Figueiredo e Pereira, 2007). O turismo sem as bases e a organização necessárias pode transformar-se em um perigoso agente de destruição do patrimônio arqueológico.
—¿Preguntas, comentarios? escriba a: rupestreweb@yahoogroups.com— Cómo citar este artículo: Pereira, Edithe y de Souza Silva, Erismar . Da penumbra à escuridão - A arte rupestre das cavernas de Ruropólis, Pará, Amazõnia, Brasil.
En Rupestreweb, http://www.rupestreweb.info/cavernasruropolis.html 2014
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