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No que se referem aos indicadores ambientais dos municípios, estes apresentam clima tipo árido, com temperatura média anual de 25,7ºC, chuvas mal distribuídas com período seco demorado e chuvoso apenas entre os meses de janeiro a abril. A pluviosidade média é muito baixa compreendendo 439,8 mm anuais. O solo da região corresponde aos tipos Planossolo, Luvissolo, Cambissolo, Neossolo e Vertissolo. A geomorfologia compreende a do Pediplano Sertanejo, com Várzeas e Terraços Aluviais. A vegetação característica varia de Caatinga Arbórea Aberta, sem palmeiras, Caatinga Arbórea Densa, com palmeiras, Caatinga Parque, com palmeiras e sem palmeiras e Caatinga Arbórea Densa, sem palmeiras (SEI, 2013). A região específica da pesquisa apresenta vegetação extremamente rarefeita, tipicamente de caatinga aberta, onde predominam arbustos, subarbustos e cactáceas entre árvores muito espaçadas. Na região de estudo as
fontes de água mais comuns se referem aos riachos temporários que só apresentam
água durante o período chuvoso, existindo, contudo, poucos corpos hídricos
permanentes. O Poço Grande localizado no povoado de Poço de Fora, Curaçá
constitui um dos raros mananciais naturais permanentes da área. Os municípios de Curaçá e Juazeiro estão inseridos no médio-baixo São Francisco e esta inserção em uma bacia hidrográfica tão importante do ponto de vista da Arqueologia os colocam como municípios detentores de grande potencial arqueológico, conforme descrito. Levando-se em consideração que os rios serviram na pré-história como principais vias de circulação para grupamentos humanos (PROUS, 1992) pode-se considerar que o São Francisco foi uma das mais importantes vias, dentro dos atuais domínios dos estados do nordeste brasileiro, incluindo-se a Bahia e do centro do Brasil (pelo estado de Minas Gerais), para a movimentação de grupos humanos entre o centro do Brasil e o litoral nordestino. Segundo Prous (1992) normalmente a escolha do ambiente a ser ocupado por grupos humanos durante a pré-história dependia da proximidade das fontes dos recursos básicos e vitais, tais como água, bem como dos locais de caça e coleta. Devendo-se considerar a água como o recurso mais imediato e, por esse motivo, o que deveria estar mais próximo do acampamento, ou habitação. A área específica da pesquisa, embora se apresente distante do rio São Francisco cerca de 70 km, encontra-se recortada por vários riachos temporários e por aguadas que são consideradas pela população local atual como fonte de recursos hídricos durante o período das chuvas e seus meses subsequentes. Por esse motivo, as bordas dos riachos e outros corpos d’água foram considerados como altamente propícias à ocorrência de sítios arqueológicos. Os abrigos e semiabrigos rochosos, além de paredões e lajedos também são espaços onde normalmente se reportam a existência de sítios arqueológicos de Arte Rupestre (PROUS, 1992; GASPAR, 2003). Assim, com base nas características geológicas da região e nas características dos ambientes em que normalmente se instalaram os sítios arqueológicos pré-coloniais de arte rupestre considerou-se para fins de pesquisa de campo que: esses sítios deveriam estar localizados preferencialmente nas bordas dos riachos, próximos a olhos d’água ou em abrigos, semiabrigos ou paredões rochosos. Tendo sido esses os ambientes onde as observações foram redobradas. Assim, durante pesquisa realizada no ano de 2007 foram localizados dois sítios de arte rupestre: Poço Grande (cadastrado no IPHAN por Etchevarne em 2007) e Serrote do Pinhão Grande
O sítio Poço Grande se localiza no Povoado Poço de Fora, Curaçá. É de pintura rupestre situado em um paredão que bordeja o rio perene Poço de Fora e que forma na área do sítio um amplo lago (Figura 2). O acesso ao sítio é fácil, constituindo uma importante área de lazer para a comunidade de Poço de Fora e arredores. As Pinturas As representações rupestres nesse sítio se estendem por paredes e tetos de pequenas reentrâncias da rocha aonde o rio se encaixa formando um pequeno cânion. As figurações se concentram até uma altura de aproximadamente 1,5 m de altura em relação a base rochosa. As pinturas desse sítio se caracterizam por figurações geométricas (ziguezagues, círculos raiados, círculos concêntricos) em vermelho e amarelo (Figuras 2, 3 e 4). A maior parte das figuras aparece em linhas grossas, tendo sido pintadas com o dedo. Por se localizarem muito próximas ao Povoado e por ser área de intensa visitação e uso o sítio mostram sinais claros de degradação, com riscos e nomes sobre e ao redor de algumas figuras (Figura 4).
O entorno do painel e possibilidades de escavação Nas proximidades do sítio, os cortadores de paralelepípedos se utilizam dos rochedos para a confecção de blocos tornando a área ainda mais suscetível à destruição patrimonial. Em um dos cortes de rocha levado ao Povoado para ser usado como pavimento, a Profa. Railda Vieira, moradora de Poço de Fora, percebeu que o mesmo apresentava duas reentrâncias polidas e contatou a equipe a fim de identificá-lo. A partir da observação concluiu-se que a peça referida era um pilão duplo de pedem granito (Figura 5); o mesmo foi doado ao Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da UNEB.
A área imediatamente ao
redor (laterais e fundo) do sítio foi investigada, mas, não se encontrou novas
evidências. Relatos coletados junto à comunidade de Poço de Fora indicam que o
Poço Grande sempre foi um lago permanente, mas, que fora ampliado há muitas
décadas. Acreditamos na hipótese de que a ampliação do lago possa ter mobilizado
sedimentos que poderiam conter vestígios e, com isso, se perdido informações,
por esse motivo optou-se por não escavar a área. SÍTIO SERROTE DO PINHÃO GRANDE O sítio Serrote do Pinhão Grande situa-se no alto do serrote de mesmo nome, na localidade de Bela Vista, estando na divisa dos municípios de Juazeiro e Curaçá. O acesso ao sítio é difícil e consiste em uma subida íngreme, com muitas rochas soltas e roladas do topo da serra (Figura 6). Do alto do sítio, que se apresenta como um semiabrigo é possível se visualizar uma ampla vista do horizonte com 180o em campo de visão livre.
As Pinturas As representações rupestres nesse sítio se estendem de um lado a outro dentro da proporção do semiabrigo, mas, estão mais concentradas na porção central abrigada, até uma altura de aproximadamente 3 m. Essas pinturas se apresentam na cor vermelha, com motivos geométricos (ziguezagues, trançados, círculos radiados, círculos concêntricos) e prováveis biomorfos, aparecem ainda figuras semelhantes a antropomorfos (Figuras 7 e 8), porém sem certeza devido à difícil visualização em face do intemperismo local. Os grafismos abstratos, ou geométricos, se sobrepõem amplamente sob os zoomorfos. A maioria das figuras aparece em linhas grossas, algumas semelhantes à biomorfos preenchidos (Figura 7 e 8), tendo sido pintadas com o dedo, mas outros traços mais finos são sugestivos para uso de pincéis (galhos). Muitas figurações encontram-se esmaecidas pela ação do sol, em decorrência da exposição aos raios solares sempre a partir da 11:00 h. Outras pinturas apresentam-se recobertas por escorrimento salino (Figuras 8 e 9).
De acordo com os depoimentos de três proprietários de fazendas próximas ao Sítio Serrote do Pinhão Grande, Srs. Antônio, Pedro Alcântara e Francisco Marinho, era comum se encontrar pilões de pedra nas redondezas do sitio. O Sr. Francisco Marinho doou ao Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da UNEB, um dos pilões que estava em sua posse e fora encontrado na área do sitio (Figura 10).
Atualmente a área do sítio é utilizada como curral para caprinos, pois, possibilita abrigo seguro. O sítio apesar de se apresentar com características potenciais de habitação, pois, possui área semiabrigada e plana. A área escavável do sítio Serrote do Pinhão Grande apresentava 15 m. de comprimento por 7 m. de largura máxima. A escavação foi baseada em uma malha de quadriculamentos que cobriu toda a superfície escavável (Figura 11). O sítio teve as seguintes intervenções: levantamento fotográfico, realização de croquis e desenhos, limpeza de superfície e realização de escavações por quadrículas de 1m x 1m com rebaixamento de 10 em 10 cm.
A área de escavação foi aberta inicialmente de forma aleatória, a fim de se identificar os locais possíveis de escavação, já que ocorriam muitos blocos rochosos no sítio; essa metodologia serviu também para identificar o local de maior concentração de vestígios dentro do sítio. Ao final a área possível de escavação (aquela com menos blocos caídos e com mais sedimento) foi a porção central do sítio. O inicio das intervenções no Pinhão Grande aconteceu com a limpeza parcial da área do sítio, pois estava com muita rocha solta, além de algumas áreas conter aproximadamente 5 cm de esterco de caprinos, pois este era usado por animais que se alimentavam nas proximidades e utilizavam a área como abrigo. Foram coletados alguns fragmentos de vidro que estavam sobre a superfície, abaixo da camada de esterco. As quadrículas foram escavadas até chegar à base rochosa (lajedo) que se estendia desde o paredão rochoso, mesmo em algumas quadrículas estéreis a escavação seguiu até sua base para constatações finais. A camada sedimentar em algumas áreas do sítio se mostrou bastante rasa não ultrapassando 20 cm e em outras áreas, no centro do abrigo, chegou ao máximo de 50 cm. Durante as escavações foram realizadas análises de detalhes, as rochas foram desenhas de acordo com a sua posição e coletadas aquelas que estavam dentro do contexto arqueológico. A única estrutura presente se referiu a uma pequena fogueira (Figura 12) localizada a 10 cm da superfície, com espessura variando de 6 a 20 cm, contendo poucos carvões, cinzas e alguns pequenos ossos. A fogueira estava situada no local de melhor proteção do abrigo (Figura 13).
Cada quadrícula e nível foi peneirado separadamente em peneira com malhas de 3 mm com exceção do sedimento de fogueira que foi apenas parcialmente peneirado, pois, parte desse sedimento foi coletado sem peneiramento, devido o aparecimento de pequenos fragmentos ósseos. Esse sedimento não peneirado da fogueira seguiu para procedimento em laboratório, para que não se perdesse material e se pudessem observar melhor quaisquer outros vestígios que por ventura não tenham sido identificados durante as escavações, mas, as análises mostraram apenas os mesmos ossos caracterizados como de pequenos roedores. Os carvões foram coletados para a realização de análises e datações. Na escavação, os vestígios identificados foram poucos, as quadras estavam na sua maioria estéreis. Os vestígios identificados constaram de pequenas lascas e fragmentos de quartzo, alguns fragmentos de ossos de animais de pequeno porte, rochas queimadas e carvões. Em nenhum espaço do sítio se encontrou vestígios de ocres que pudessem ser associados aos momentos da pintura do painel rupestre. Findada a escavação do sítio, observou-se que ocorreram vestígios unicamente na área em que foi localizada a fogueira. Sendo sugestivo que o sítio poderia ter sido um local voltado para uma permanência mais efêmera. Ao final foram escavadas 30 quadrículas no espaço semiabrigado. Foram também realizadas sondagens na área exterior e estas se apresentaram pouquíssimos vestígios em quartzo, bem como mínima espessura do pacote sedimentar (entre 10 e 15 cm).
CONSIDERAÇÕES Tanto o sítio Serrote do Pinhão Grande como o Poço Grande chamam a atenção em decorrência das características estéticas e simbólicas que apresentam, e pela presença dos pilões que os tornam favoráveis à existência de habitações ou acampamentos próximos. O localmente denominado ‘Poço Grande’ se forma no leito do rio Poço de Fora, em um trecho de lajedos que se abaciam na área do sítio e resulta em um amplo reservatório. É comum na caatinga darem nomes aos corpos de água, por serem extremamente importantes no semiárido e constituírem marcadores territoriais. Nesse sentido, denominações como: poço de fora, poço de dentro, poço grande, caldeirão grande, etc., são termos comuns que designam locais que apresentam uma relação direta com a sobrevivência das comunidades rurais do semiárido nordestino. Esse poço, por exemplo, foi tão importante para a ocupação local que, segundo narrativas dos moradores atuais da área, ele foi o principal atrativo para o início do povoado histórico de Poço de Fora. Vale destacar que a região é de clima semiárido a árido, que embora pertença à bacia do São Francisco a drenagem local é caracterizada por rios e riachos intermitentes e que no período de seca normalmente estão sem água. Na área de estudo, um dos poucos mananciais de água corrente, inclusive durante as estiagens prolongadas é justamente o rio Poço de Fora. Segundo as informações orais o ‘Poço Grande’ foi encontrado por um escravo fugitivo que perambulava nas redondezas à procura de água durante um grande evento de seca que assolava a região. Não se sabe ao certo o período, mas, os depoentes mais idosos informam que foi anterior ao ano de 1850. Relatam que este escravo, ao encontrar o Poço Grande e dele se abastecer, informou a sua existência àquele que seria o primeiro fazendeiro a se apossar das terras locais. Essa história é corroborada por Lopes (2000), quando detalha sobre a fundação de Poço de Fora e salienta que durante o período da escravidão, em uma fase de grande seca, um negro fugitivo encontrava-se errante quando se deparou com o poço grande. Ali se banhou e se abasteceu, mas, não podia demorar porque estava sendo perseguido. Salienta o autor que esse negro encontrou em seguida um criador na companhia de dois filhos e um escravo e que por ali estava à procura de terras boas para se instalar. Desse encontro o fugitivo informou sobre o poço grande para não ser entregue pelo criador. A partir de então, o fugitivo partiu e o criador trouxe para aquela região de águas permanentes o seu rebanho. A partir dessa data inicia-se o processo de povoação de Poço de Fora Com relação específica ao sítio Serrote do Pinhão Grande, ainda que o abrigo seja do ponto de vista ambiental ideal para acampamentos ou moradia, a escavação não indicou elementos suficientes que sugerissem usos cotidianos e intensos do abrigo. Ao se analisar a espacialidade intra-sítio observa-se que a área fica exposta à insolação a partir da metade da manhã e, caso os ocupantes da área não tivessem construído proteções contra os raios solares, a ocupação desses setores seria pouco atrativa. Vale salientar também que durante as escavações não se observou nenhuma estrutura do tipo ‘buracos de estaca’ que pudessem sugerir anteparos de madeiras e palhas. Consideramos ainda que, apesar da área do sítio ser favorável a uma ocupação mais demorada, a pouca quantidade de vestígios oriundos da escavação parece indicar que o espaço estaria mais relacionado com uma frequência humana pouco prolongada. A existência das pinturas indica obviamente a importância simbólica do sítio e a nossa hipótese para a existência de apenas uma fogueira remete talvez a um caráter cerimonial em que o fogo estivesse associado. Por outro lado, levando-se em consideração o fator visibilidade a partir do sítio, observa-se a ampla visão do entorno que o mesmo proporciona. Do sítio é possível se controlar visualmente um campo de mais de 180o completamente livre; dele é possível ver outros pontos geográficos (pequenos morros e leitos de riachos) ao redor. A ampla visibilidade a partir do sítio demonstra ser esse um local importante e estratégico para controle visual da região. Além disso, a relação visual do sítio não se detém apenas à percepção a partir do mesmo, mas a serra (o sítio) assume especial destaque no relevo local. Este serrote é visível desde grande distância e por meio dele é possível se ter boa noção de localização espacial em terra, podendo ser considerado como um importante marco paisagístico. Analisando-se ainda o sítio a partir dessa aproximação paisagística relacionada ao seu papel enquanto marco importante na paisagem, observa-se que o Serrote do Pinhão Grande ocupa na região uma centralidade e expressão paisagística estratégica. Atualmente o serrote encontra-se cercado de caminhos que se cruzam em um ambiente entrecortado por leitos secos de riachos, mas que em épocas de chuvas alagam-se aos pés do serrote. A paisagem local se estrutura voltada às diversas faces do serrote e sua relação com esses riachos. Seja pelo fator água ou expressividade paisagística, o certo é que os locais com água não são comuns na região. As altas serras também não seriam lugares despercebidos. Assim, escolher locais abundantes em recursos hídricos ou excepcionais em destaque paisagístico, incorporá-los aos simbolismos culturais por meio de marcas pintadas ou gravadas seriam possibilidades tangíveis. Conforme salienta Ribeiro (2006, p. 299), acerca de sua pesquisa sobre sítios de arte rupestre em áreas de serras “certamente estas especificidades das paisagens naturais regionais influenciaram as pessoas na pré-história”. O fato de não achar dentro
das áreas desses sítios sinais de atividades corriqueiras corrobora o pensamento
de que esses seriam estritamente cerimoniais. Sobre a excepcionalidade desses
tipos de sítios, Sven Ouzman afirma quando discorre acerca de grupos
tradicionais históricos, que as gravações e pinturas usadas para a marcação de
lugares estão relacionadas indubitavelmente a um fato excepcional dentro do
cotidiano daqueles (OUZMAN, 1998).
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