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A
coleta de dados foi realizada in situ, em cinco campanhas de campo, efetuadas,
respectivamente, nos meses de novembro de 2011, junho de 2012, outubro de 2012,
dezembro de 2012 e junho de 2013 e as medidas sistemáticas, além do aspecto
sazonal em diferentes períodos do ano, também consideraram a variação dos
parâmetros avaliados ao longo do dia.
As
medidas de temperatura do ar e de umidade relativa do ar foram coletadas usando
um termo-higrômetro digital da Instrutemp, com escalas internas de -10 ºC
a +50 ºC (para temperatura) e 15% a 95% (para umidade), resoluções
correspondentes de 0,1 ºC e 1% e precisões respectivas de ± 1 ºC
e ± 5%.
A
avaliação de temperatura (realizada em três diferentes pontos, conforme a
Figura 3) em áreas do suporte rochoso com pinturas rupestres e,
comparativamente, em áreas, imediatamente adjacentes, sem tinta pré-histórica,
foi efetuada com um termômetro infravermelho ITTI-550 da Instrutemp, projetado
para a medição da temperatura de superfícies, com escala de -32 ºC a +530 ºC,
resolução de 0,1 ºC e precisão de ± 2%.
A
velocidade dos ventos foi aferida com um anemômetro digital portátil ITAN-700
da Instrutemp, com escala de 0 a 30 m s-1.
Os
resultados das medidas de temperatura do ar ambiente podem ser observados na
Figura 4. A amplitude térmica no dia 13 de novembro de 2011 foi de 5,4 ºC,
com mínima de 28,2 ºC nas primeiras horas da manhã e máxima de 33,6 ºC
às 13h50min. Em 15 de junho de 2012 a amplitude térmica foi de 5,3 ºC, com
mínima de 29,6 ºC no início da manhã e máxima de 34,9 ºC, às 13h42min.
Em 14 de outubro de 2012 a amplitude térmica correspondente foi de 7,5 ºC,
com mínima de 28,9 ºC no início da manhã e máxima de 36,4 ºC às 14
horas. A amplitude térmica durante no dia 27 de dezembro de 2012 foi de
9,8 ºC, com mínima de 26,8 ºC nas primeiras horas da manhã e máxima
de 36,6 ºC às 14h06min. Em 22 de junho de 2013 a amplitude térmica foi de
4,6 ºC, com mínima de 24,7 ºC às 15h48min e máxima de 29,3 ºC às
14h48min. De forma geral, as maiores temperaturas foram verificadas no
intervalo entre as 13 horas e 15 horas, com picos térmicos próximos das 14 horas.
A
amplitude térmica geral no período em que as medidas experimentais foram
realizadas foi de 11,9 ºC, com máxima de 36,6 ºC em dezembro de 2012
e mínima de 24,7 ºC em junho de 2013. Genericamente, as temperaturas mais
elevadas foram observadas no segundo semestre do ano, entre outubro e dezembro
(no período mais seco), e as mais baixas foram verificadas no primeiro
semestre, no período úmido, em que as chuvas se concentram. Curiosamente duas
inversões foram observadas, nos meses de novembro de 2011 (em que as
temperaturas mostraram-se substancialmente baixas) e em junho de 2012 (que
exibiu comportamento térmico com temperaturas relativamente elevadas).
A
amplitude da umidade relativa do ar (também mostrada na Figura 4) durante no dia
13 de novembro de 2011 foi de 23%, com máxima de 57% no início da manhã e
mínima de 34% próxima às 15 horas. Em 15 de junho de 2012 a amplitude de
umidade foi de 37%, com máxima de 71% no início da manhã e mínima de 34%,
próxima às 16 horas. Em 14 de outubro de 2012 a amplitude de umidade relativa
do ar ambiente foi de 30%, com mínima de 29% às 16 horas e máxima de 59% nas
primeiras horas da manhã. A amplitude de umidade do ar no dia 27 de dezembro de
2012 foi de 43%, com máxima de 68% no início da manhã e mínima de 25% às
17h06min. Em 22 de junho de 2013 a amplitude de umidade relativa foi de 14%,
com mínima de 73% às 14h48min e máxima de 87% às 15h48min.
Em
relação a todo o período em que as medidas foram efetuadas no abrigo Letreiro
da Pedra Riscada, a amplitude global de umidade relativa do ar foi de 62%, com
mínima de 25% em dezembro de 2012 e máxima de 87% em junho de 2013.
De
modo geral, verificou-se que o período de mais baixa umidade relativa do ar
ocorre no segundo semestre do ano (naturalmente acompanhando o período de
estiagem), ao passo que as umidades mais elevadas concentram-se no primeiro
semestre, nos meses mais chuvosos. A exceção a esse comportamento genérico
ocorreu no mês de junho de 2012, que apresentou umidades relativas mais baixas
do que as esperadas para esse período do ano.
Os
resultados das medidas de temperatura nos pontos P1 e P2 (áreas com e sem
pintura rupestre), realizadas no dia 13 de novembro de 2011, estão apresentados
na Figura 5. A amplitude térmica nessa época do ano foi de 3,4 ºC (no
ponto P1), com mínima de 30,1 ºC no início da manhã e máxima de 33,5 ºC
às 13h50min. Nesse mesmo período a amplitude térmica no ponto P2 foi de
3,5 ºC, com máxima de 33,6 ºC às 13h50min e mínima de 30,1 ºC
nas primeiras horas da manhã. Em geral, não foram verificadas diferenças
significativas de temperatura entre áreas pintadas e sem tinta pré-histórica.
Em novembro todo o abrigo rupestre fica protegido da incidência solar durante o
dia inteiro. O período do dia em que se verificaram as maiores temperaturas no
substrato rochoso, tanto nas áreas com pintura rupestre quanto nas
imediatamente adjacentes sem tinta, foi próximo das 14 horas. As amplitudes térmicas
do substrato rochoso nas áreas sem tinta pré-histórica foram, respectivamente,
3,2 ºC (no ponto P1) e 3,4 ºC (no ponto P2).
As
amplitudes térmicas registradas nas áreas do substrato rochoso que não possuem
aplicação de tinta foram de 6,0 ºC (no ponto P1), de 5,9 ºC (no ponto
P2) e de 6,8 ºC (no ponto P3), respectivamente. Nesse período do ano toda
a área abrigada fica protegida da incidência direta da radiação solar durante o
dia inteiro.
As
medidas experimentais (Figura 8) in situ efetuadas em 27 de dezembro também apontaram genericamente que nesse período
nenhuma diferença significativa é observada entre as áreas pintadas e aquelas
que não contêm tinta aplicada. A amplitude térmica no ponto P1 foi de 6,7 ºC,
com mínima de 29,9 ºC no início da manhã e máxima de 36,6 ºC às
14h06min. No ponto P2 a amplitude de temperatura foi da ordem de 7,1 ºC,
com máxima de 36,8 ºC às 14h06min e mínima de 29,7 ºC às 5h06min. No
ponto P3, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa foi de 8,1 ºC,
com mínima de 28,9 ºC, nas primeiras horas da manhã, e máxima de
37,0 ºC, às 14h06min. Nas áreas, imediatamente adjacentes, mas que não
contêm tinta pré-histórica, as amplitudes térmicas foram, respectivamente, de
6,5 ºC, 7,1 ºC e 8,0 ºC.
Embora
o abrigo fique completamente protegido da radiação solar direta entre os meses
de outubro e dezembro, é justamente nesse período do ano em que se verificam as
temperaturas mais elevadas. Um comportamento anômalo foi observado no mês de
novembro de 2011, com temperaturas relativamente baixas para o segundo semestre
do ano, uma exceção à tendência geral.
Considerações Finais
A
rocha suporte das pinturas rupestres do sítio Letreiro da Pedra Riscada está
exposta ao tempo e sujeita a todos os tipos de agressões, desde as naturais,
devidas às intempéries, até às ações antrópicas, de origem acidental ou
intencional, que passam a ter efeito tanto sobre a matriz pétrea quanto sobre
os grafismos.
As
medidas experimentais apontaram uma amplitude térmica diária, entre os meses de
novembro de 2011 e junho de 2013, que varia frequentemente, mas que se situa no
intervalo de 4,6 ºC a 9,8 ºC (no ar ambiente), de 2,6 ºC a
6,7 ºC (na área pintada do ponto P1), de 3,0 ºC a 7,3 ºC (na
área com tinta pré-histórica do ponto P2) e de 3,5 ºC a 8,1 ºC (na
pintura rupestre do ponto P3). Esta variação de temperatura influencia
diretamente na deterioração do suporte rochoso e das pinturas rupestres,
causando o surgimento de novas rachaduras e o alargamento das fraturas já
existentes, bem como podendo levar a possíveis desplacamentos das porções mais
externas do arenito. Os diferentes graus de dilatação dos diversos minerais
constituintes do substrato e dos pigmentos minerais das tintas pré-históricas
sofrem intensamente a ação de tais fatores térmicos, que atuam de modo
diferenciado, dependendo do mineral.
Observou-se
que a temperatura atuante nas pinturas rupestres é consideravelmente mais
elevada no mês de dezembro, com amplitude térmica de 8,1 ºC, em um dos
pontos de maior incidência direta da radiação solar.
De
forma genérica, observa-se que o comportamento térmico é diferenciado ao longo
do substrato arenítico, dependendo da exposição direta ou não à radiação solar
e do tempo em que tal exposição efetivamente ocorre.
A
umidade relativa do ar, da mesma forma, variou em um amplo intervalo. Este
parâmetro, associado ao teor de água oriundo de infiltração e consequente
migração do interior da rocha matriz, bem como às águas que eventualmente
escorrem pelas paredes do arenito, influenciam diretamente no grau de
hidratação de alguns constituintes mineralógicos, sobretudo dos compostos
salinos, correlacionando-se de forma direta com o aparecimento de
eflorescências salinas e favorecendo a proliferação de líquens (associações
simbióticas entre fungos e algas ou cianobactérias), os quais deixam manchas de
cores variadas.
A
velocidade dos ventos também exibiu valores relativamente altos, em
determinados horários do dia (nos meses de outubro e dezembro), nos quais pode
atuar mais fortemente na degradação das pinturas rupestres, pois carreia os
grãos menores da estrada de chão, existente na frente do abrigo. Os microcristais
de silicatos e argilominerais avermelhados atuam por abrasão e removem a camada
de tinta pré-histórica. Muitos grafismos rupestres estão desaparecendo
integralmente e/ou sendo recobertos por completo pelo filme de poeira, que se
deposita na parede do abrigo.
A
relava baixa incidência de ventos nos meses de junho de 2012 e de 2013 pode ser
explicada pelo aumento da vegetação no entorno no abrigo (abundante no final do
período chuvoso e formando uma cortina verde), o que impede que as correntes de
ar atinjam mais fortemente o abrigo e, por consequência, as pinturas rupestres.
O
perigo evidente de destruição do abrigo Letreiro da Pedra Riscada exige ações
efetivas no sentido de desviar o trecho da PI-258 (estrada de chão) no qual o
sítio está localizado. Por outro lado, intervenções de conservação também são
necessárias, visando barrar ou pelo menos desacelerar a ação dos principais
agentes degradantes. A remoção mecânica dos ninhos de vespas (maria-pobre), das
galerias de cupins e do lixo antrópico, da mesma forma que a retirada da camada
de poeira que está recobrindo as pinturas situadas nas partes mais baixas dos painéis
rupestres, é prioritária. Além disso, plantar mudas de árvores nativas,
permitindo um maior obstáculo para a incidência solar direta e diminuição da
ação dos ventos no abrigo.
Além
dos aspectos levantados, o monitoramento constante dos problemas de conservação
é necessário e de suma importância, para o controle efetivo dos agentes
degradantes.
—¿Preguntas, comentarios? escriba a: rupestreweb@yahoogroups.com—
Duarte Cavalcante, Luis Carlos; Viana Alves, Yana Raquel y Bezerra da Silva,
Heralda Kelis. Medidas experimentais in situ para avaliar o estado de conservação do sítio arqueológico Letreiro da Pedra Riscada, Domingos Mourão, Piauí, Brasil. En Rupestreweb, http://www.rupestreweb.info/letreiropedrariscada.html
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