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As pinturas rupestres foram feitas em pontos de erosão alveolar em
rochas areníticas da Formação Cabeças – Membro Oeiras, as quais
apresentam a feição externa semelhante a carapaças de tartaruga, estruturas
resultantes da modelagem diferencial pelas ações, sobretudo, das chuvas e dos ventos
(FORTES, 1996; Figura 2).
Este artigo, em especial, apresenta o sítio Pedra Ferrada, um complexo rochoso que tem quatro paineis de pinturas rupestres e que está localizado em uma área com residências e frequentes intervenções antrópicas, pelos moradores do entorno.
Metodologia
Os trabalhos de campo foram realizados de forma a conhecer o sítio (registros rupestres, substrato rochoso e problemas de conservação envolvidos) e o ambiente no qual ele está inserido (geomorfologia, flora – presente no sítio e em seu entorno imediato – e fauna – presente no suporte pétreo e vizinhança). As áreas com pinturas foram divididas em paineis; posteriormente realizou-se a contagem dos registros rupestres, por painel; verificou-se a recorrência dos motivos representados; a observação das cores dos pigmentos usados na elaboração dos grafismos; a medição da largura média do traço gráfico e dos tamanhos das figuras. Além disso, realizou-se o levantamento fotográfico com e sem escala (das pinturas, dos depósitos de alteração e do ambiente do entorno), bem como se verificou a ocorrência ou não de sobreposições de cores e de inscrições rupestres. Também se efetuou a medição da altura superior e inferior dos registros, em relação ao nível médio do solo atual.
A flora foi descrita, preliminarmente, com base na nomenclatura popular, fornecida por moradores da região e a identificação científica dos espécimes catalogados em campo foi efetuada com base na literatura especializada da área. A descrição da fauna ficou circunscrita aos animais que influenciam diretamente nos problemas de conservação dos registros pintados.
A localização geográfica foi realizada via utilização de GPS Garmin Etrex, (Datum WGS 84). Investigou-se ainda a orientação geográfica da abertura das manchas gráficas.
Todos os procedimentos de campo foram documentados exaustivamente através de anotações em caderno destinado para este fim e pela composição de um banco de imagens digitais, visando, entre outros aspectos, o monitoramento do estado de conservação do sítio investigado.
O sítio Pedra Ferrada
O sítio Pedra Ferrada
situa-se em um complexo arenítico em avançado estado de degradação, localizado
nas coordenadas geográficas 4º25’11,6” de Latitude Sul e 41º43'15,9” de Longitude
Oeste, a 219 metros em relação ao nível médio do mar, no povoado Oiticica, área
rural do município de Piripiri, estado do Piauí, Brasil. São quatro paineis gráficos,
espacialmente separados, contendo um total de 37 registros rupestres representando
grafismos puros e alguns poucos carimbos de mãos humanas. As pinturas foram
elaboradas principalmente em diferentes tonalidades de vermelho e em um púrpura
quase preto.
A vegetação do entorno (Figura 3) é típica de cerrado com algumas intrusões de caatinga, com exemplares de macambira (Bromelia laciniosa Mart. ex Schult. F), capim (Eragrostis pilosa (L.) P. Beauv.), relva rasteira, pitomba (Talisia esculenta Raldk.), fonte, farinha-seca (Casearia ulmifolia Cambess.), fedegoso (Senna occidentalis (L.) Link.), muta (Myrcia fallax (Rich.) DC.), pequiá (Aspidosperma parvifolium A.DC.), pau-de-terra (Qualea grandiflora), gameleira (Ficus gameleira Standl), canjarana, araticum (Annona coriacea Mart.), lacre, jatobá (Hymenaea courbaril L.), cascudo, cajuí (Anacardium microcarpum Ducke.), cana (Saccharum officinarum Roxb.), banana (Musa paradisiaca L.), birindiba, faveira (Parkia platycephala Benth.), cajueiro (Anacardium occidentale L.), pitomba de leite, imburana (Amburana cearensis (Allemão) A.C.Sm.), ameixa (Ximenia americana L.), aroeira verdadeira (Myracrodruon urundeuva Allemão), angico-preto (Anadenanthera macrocarpa (Benth.) Brenan) e janaguba (Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel).
A fauna mais frequente no sítio é composta por abelhas italianas,
vespas-marimbondo, vespas-maria-pobre, rabudos, preás (Cavia aperea),
caprinos, ovinos, suínos e bovinos.
Descrição dos painéis
gráficos
Painel 1
O Painel 1 (Figura 4) tem 9
grafismos voltados para leste, com o registro mais alto a 2,20 m e o mais
baixo a 1,90 m, ambos em relação ao nível médio do solo atual. A largura
média do traço gráfico é de 1,2 cm.
O Painel 2 (Figura 5) tem 14
registros rupestres (Figura 6) voltados para o norte e situa-se a 5,70 m à
direita do Painel 1. O grafismo mais alto está a 1,16 m e o mais baixo a 34 cm,
ambos em relação ao nível médio do solo atual. A largura média do traço gráfico
varia de 7,0 mm; 1,0 cm; 1,2 cm. Entre os motivos pintados, há a
recorrência de 4 carimbos de mãos humanas.
Painel 3
O Painel 3 (Figura 7) tem 6 registros
rupestres voltados para o oeste e está situado a 1,95 m à direita do Painel
2. O registro mais alto localiza-se a 3,65 m e o mais baixo a 3,40 m,
ambos em relação ao nível médio do solo atual. A largura média do traço gráfico
varia de 9 mm;10 mm; 11 mm; 12 mm. Marcas de respingos
indicam que as pinturas foram feitas com a tinta no estado líquido.
Painel 4
O Painel 4 (Figura 8) tem 8
registros rupestres (Figura 9) voltados para o sudoeste e localiza-se a
21 m à esquerda do Painel 1. O grafismo mais alto situa-se a 1,18 m e
o mais baixo a 65 cm, ambos em relação ao nível médio do solo atual. A
largura média do traço gráfico das pinturas é 0,7 cm; 1,2 cm; 1,3 cm;
1,5 cm.
Análise do estado de
conservação
O estado de conservação das
pinturas é bom, mas a rocha está sendo deteriorada pela vegetação. O bloco de
arenito enfrenta muitos problemas de conservação, sendo que o principal é a
presença de raízes de plantas trepadeiras, que estão fortemente fixadas,
penetrando nas fissuras existentes e abrindo outras, literalmente esfacelando o
suporte rochoso. Existem principalmente muitas bromeliáceas e gameleiras
fixadas ao suporte rochoso e verifica-se também a ocorrência de líquens e
musgos. A rocha matriz contém ainda vespas-marimbondo e insetos. Há manchas de
fuligem, decorrentes da eliminação de vespas-marimbondo e abelhas, além de
galerias de cupins, ninhos de vespas-maria-pobre, teias de aranha e
eflorescências salinas. A fonte de água mais próxima é um riacho a cerca de 100
metros do sítio.
Os diversos problemas de
ação antrópica estão especialmente relacionados com a grande proximidade das
residências do entorno do complexo arenítico e a elevada densidade de pessoas
permanentemente na área. Como consequência, o sítio é continuamente visitado,
sendo utilizado como depósito de entulhos, além da existência de um campo de
futebol de areia (Figura 10), localizado lateralmente ao bloco rochoso e na
frente do Painel 1.
Os carimbos de mãos humanas são os únicos registros rupestres reconhecíveis no sítio Pedra Ferrada e os respingos de tinta pré-histórica são fortemente indicativos de que as pinturas foram feitas com os pigmentos no estado líquido. A largura média dos traços gráficos também é sugestiva de que as pinturas tenham sido executadas com os dedos das mãos, exceto na representação dos carimbos de mãos, em que as palmas foram previamente pintadas e posteriormente impressas na parede rochosa. Esse sítio chama a atenção pelo fato das pinturas rupestres estarem
bem preservadas, embora o complexo rochoso no qual os paineis foram pintados
esteja encravado em uma área com moradias humanas muito próximas (Figura 11). O
fluxo de pessoas, de bicicletas e até mesmo de veículos é preocupante, mesmo
que não tenham sido verificados atos de vandalismos (como pichações, por
exemplo) diretamente nas pinturas.
O campo de futebol na lateral do complexo arenítico e na frente do Painel 1 é resultante da remoção de vegetação ao longo do tempo e atualmente influencia na disponibilidade de sedimentos finos, que danificam as pinturas por abrasão.
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Cómo citar este artículo: Duarte Cavalcante, Luis
Carlos; Nunes Ferreira, Adna
Lusane; de Castro, Mayana;
2013
REFERENCIAS
CAVALCANTE,
L. C. D.; RODRIGUES, A. A. Arte rupestre e problemas de conservação da Pedra do
Cantagalo I. International Journal of South
American Archaeology, n. 7, p. 15-21, 2010. CAVALCANTE,
L. C. D.; RODRIGUES, A. A. Pinturas rupestres do sítio Cadoz Velho I, Piripiri,
Piauí. Rupestreweb – Arte
Rupestre em América Latina, não paginado, 2012. Disponível em:
<http://www.rupestreweb.info/piripiri.html>. Acesso em: 12 dez. 2012. CAVALCANTE,
L. C. D.; RODRIGUES, P. R. A. Análise dos registros rupestres e levantamento
dos problemas de conservação do sítio Pedra do Atlas, Piripiri, Piauí. Clio Arqueológica, v. 24, n. 2, p.
154-173, 2009. CAVALCANTE,
L. C. D.; RODRIGUES, P. R. A. Pedra do Dicionário: registros rupestres e
propostas de intervenção de conservação. Clio
Arqueológica, 2013. Submetido. COUTINHO,
R. Inscrições pré-históricas de Piripiri.
Piripiri: J. A. Gráfica e Editora Ltda., Edição do autor, 1996. FORTES,
F. P. Geologia de Sete Cidades.
Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1996. MAGALHÃES,
S. M. C. A arte rupestre no centro-norte
do Piauí: indícios de narrativas icônicas. 2011. 456 f. Tese
(Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2011. NAP-UFPI/IPHAN. Levantamento e cadastramento de sítios arqueológicos do estado do Piauí – 1ª a 10ª Etapa. Teresina: NAP-UFPI, 1986 a 2005.
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